Tarde do dia 14 de julho de 2010.
Depois de 27 dias, surgiram diante de mim as primeiras imagens de Santiago de Compostela.
Do alto de uma grande colina, o que se vê pode parecer, à primeira vista, algo semelhante a uma cidade comum... Mas para nós, peregrinos, que a cada passo alimentamos a esperança e as dúvidas sobre o que iria acontecer no dia seguinte, se realmente seria possível pisar em Santiago, se aproximar dela é indescritível.
Sentimentos, emoções não podem ser fielmente transformados em palavras e nem ninguém - além de nós mesmos - é capaz de compreender o que nos revoluciona a alma daquela forma...
A mais singela manifestação de tanta emoção possível a pobres mortais, então, é chorar...
Sem parar de andar... Afinal, do momento em que se percebe estar diante de Santiago de Compostela até estar diante da Catedral ainda há uma longa área urbana a ser percorrida...
Mas, não tem importância nenhuma... Depois de mais de 700 quilômetros e tantas experiências, mais alguns minutinhos são nada...
O coração - coitado - tenta resistir. Só ele é testemunha da constante batalha interior entre corpo e mente que ocorreu inúmeras vezes sempre que se avizinhava a possibilidade de algo acontencer para atrasar, impedir, atrapalhar a jornada...
Só ele sabe o quanto eu estava entregue ao Divino, o quanto eu sinceramente precisava percorrer aqueles caminhos - não para pedir, para desejar, mas para agradecer, para celebrar em nome de tudo o que pude viver até hoje, pelas possibilidades que tenho, por ter sido atendida sempre, mesmo quando não me senti no direito de dirigir orações a Deus. Como no acidente de carro da minha mãe, quando entreguei ao Céu a sua recuperação, surpreendendo até o médico...
Só mesmo meu coração para entender...
"Idéia fixa", uma vez, alguém me disse... E graças a Deus que era mesmo! Idéia fixa de gratidão...
Uma idéia fixa de manifestar o sentimento que tenho pela vida.
Hoje, de volta ao Brasil, confesso estar ainda um tanto fora de sintonia com tudo... Meio esquisita, como se na minha cabeça tivesse havido uma limpeza, um grande "balanço" e agora tudo passasse por um gigantesco processador de conteúdos... Meus e também os que estão ao meu redor...
O daqui para a frente, que já está acontecendo, assim como toda a minha vida, não me pertence... Vou continuar aberta a tudo, ao que eu preciso ser e fazer... Porque agora mais do que nunca sei que tenho muito mais responsabilidades...
A oportunidade da experiência do Caminho pode ter sido individual durante 27 dias, mas a concretude do resultado dela deve ser transformada em algo coletivo. Posso até ainda não saber como, mas tenho certeza de que não vou demorar a descobrir...
Para encerrar, acho que o Caminho pode ser resumido como fez o poeta que escreveu no muro de Nájera. Sem pretender reproduzir todas as palavras dele - até porque não me lembro exatamente - acho que é a melhor coisa que já vi sobre tudo isso, para explicar o motivo que levar tanta gente a se lançar nessa jornada ... e com tanta alegria, com tanta determinação, com tanta fé:
No Caminho, somos todos movidos por uma voz que nos chama e uma força inexplicável que nos move...
É verdade.
Obs: as fotos e parte das experiências - inclusive as engraçadas (que não foram poucas...rrrrrrssss) - vão aparecer aqui... aos poucos, claro...