terça-feira, 10 de agosto de 2010

"Onde se cruza o caminho do vento e o das estrelas"

A Caminho do Alto do Perdón


Muitos lugares por onde passamos foram marcantes - cada um de uma forma diferente. Com um simbolismo diferente, uma conexão distinta entre o material e o divino. Mas, um deles - acho até que o primeiro que me desafiou de verdade como peregrina de Santiago foi o Alto do Perdón.

Meu marido e eu estávamos tensos por causa da hérnia de disco dele, das reais condições que teria de subir e das consequências que aquele trecho poderia trazer para a sua saúde física. Sim, física, porque emocionalmente parecia determinado a enfrentar a incerteza...

O fato é que não havia dúvidas: o Alto do Perdón, pouco depois da travessia urbana de Pamplona, estava bem ali para ser ultrapassado. Assim como muitas outras vezes, não dava para saber ou ver até onde teríamos que andar, quanto ainda faltava para chegar até a parte mais alta. Aliás, também na vida, a gente nunca consegue prever, calcular ou programar com precisão o próximo passo.

Tentamos traçar uma estratégia para caminhar, de tal maneira que o corpo fosse poupado, que os joelhos não doessem muito, que a coluna não sentisse o esforço. Bobagem... Estava no espírito, na alma, a razão para estarmos ali e era justamente ele que nos daria condições de superar a dificuldade... Aliás, uma dificuldade que não se resumia ao trajeto em direção ao céu. O frio e o vento eram intensos. Foi aí que nos convencemos de que alguma coisa errada estava acontecendo com aquele "verão" europeu...

Mas, como dizem os peregrinos - e eu também aprendi a lição - "es el Camino".
Todas as sensações, sentimentos, dificuldades, alegrias, encantamentos, enfim - tudo faz parte dessa grande viagem...

E no Alto do Perdón eu comecei a perceber e a entender isso...

As pedras no Caminho



Nem sei quantas foram, mas certamente muitas pedrinhas ficaram por onde passei ao longo do Caminho, atravessando a Navarra. Em cima de cada pequeno mojón, com a seta amarela e a vieira, em reverência a tudo aquilo o que eu estava vivendo, uma foi colocada - algumas pequenas, outras maiorezinhas, algumas minúsculas, mas a importância e a emoção que depositei certamente naquele gesto nem dá para descrever.

Ofereci todas elas. Repetidas vezes, falei em voz alta dentro do meu coração o nome dos meus protetores - São Jorge , que defende e protege; São Francisco que me inspira e me abre os olhos e as emoções; Nossa Senhora que conforta e conduz a caminhada; e Santiago, a direção da longa jornada interior. O que senti em cada uma das vezes que fiz isso? Só eles sabem. No Caminho, nenhuma emoção é igual...

Teria feito isso sem me cansar pelos mais de 700 quilômetros que percorremos, mas só na Navarra os mojóns são baixos o suficiente para que as pedrinhas fossem colocadas, além do fato de serem mais constantes... Fora da Navarra, a sinalização - tanto de setas quanto de mojones e vieiras - é bem mais irregular.

Mas, mesmo sem as pedras que não consegui deixar, as marcas dos meus passos ficaram pelo Caminho... assim como o Caminho está marcado na minha alma.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Um Caminho sem perguntas, mas com todas as respostas

O Caminho ainda está me levando...




Sinto que ainda vou precisar me dar mais um tempo, até conseguir (ou pelo menos tentar) reduzir a experiência do Caminho de Santiago a palavras.
Ensaiei dezenas de vezes.
Na minha alma, às vezes me flagro relatando para mim mesma a intensidade do que representou ser conduzida por estradas em direção ao que há de mais divino, que é a nossa própria essência...

Mas, quando penso em filtrar os sentimentos, transportá-los até as pontas dos dedos, decodificá-los para depois martelar nestas tantas teclinhas do computador, desisto.
Isso não é possível de ser feito...

Meu coração mais uma vez aperta e a emoção vem com uma intensidade que jamais seria capaz de arriscar a organizar em frases, parágrafos, textos inteiros...

Tenho necessidade de apenas deixar fluir o meu silêncio, que tem me abstraído de todos os pensamentos, palavras e atos já sem sentido.

O Caminho ainda está me levando...

Nada mais como era antes...